Servidor Público é quem mais deve em consignado | Imprimir |
Segunda-Feira, 07 de Maio de 2018 às 14:01

Para o educador financeiro, Jônatas Bueno, a falta de educação financeira é a principal deficiência do brasileiro quando se fala em capacidade de lidar com dinheiro.Apesar do verdadeiro pesadelo que isso pode significar para suas vidas, os brasileiros continuam acumulando dívidas. Dados do Banco Central mostram que, somente no crédito consignado — uma das formas de empréstimo mais baratas entre as disponíveis no mercado —, servidores públicos, por exemplo, têm um débito total superior a R$ 178 bilhões, saldo que cresceu 4,9% no período de 12 meses terminados em março. O funcionalismo é a categoria com o maior endividamento nessa modalidade. Com uma renda média de R$ 3.335, cada servidor deve, em média, R$ 15.534, o equivalente a 4,6 vezes o ganho mensal.

O terapeuta financeiro Jônatas Bueno explica que o trabalhador do setor público tem mais condições de se endividar, já que conta com estabilidade no emprego e um alto salário inicial. “As pessoas que entram no serviço público, geralmente, são mais novas, estão no início de carreira e acabam criando hábitos de vida muito caros”, avalia.

“Eu acho que ter estabilidade faz a gente se sentir mais disponível para se endividar”, concorda Lennon Duque de Barros, 35 anos, funcionário da Junta Comercial do DF.  Lennon diz que já fez vários empréstimos consignados e que não se arrepende. “Nesse tipo de crédito, o valor das parcelas não pode passar de um terço do salário do servidor. Isso dá uma certa segurança”, argumenta.

Quando as contas a pagar ultrapassam o dinheiro disponível, no entanto, é um sinal de alerta, observa Jônatas Bueno.  Ao contrário de Lennon Barros, a experiência do também servidor Carlos Saviolli, 56, foi desastrosa, a ponto de ter passado a tomar remédios para depressão e pressão alta.

Saviolli conta que, em março de 2015, tomou um empréstimo consignado de R$ 60 mil na Caixa Econômica Federal, pelo qual pagava uma prestação mensal de R$ 1.350. Atraído por uma oferta de juros mais baratos, porém, ele decidiu fazer a portabilidade da dívida para outra instituição. A troca, porém, piorou sua condição financeira, pois os juros, na verdade, eram maiores do que o combinado verbalmente.

O servidor conta que fez um acordo para refinanciar o débito, que incluía um novo empréstimo de R$ 20 mil, valor que acabou não sendo integramente liberado. Após gastar dinheiro com advogados e pagar 22 parcelas de R$ 2.600, Saviolli fez uma reclamação ao Sistema de Gestão de Pessoas do Governo Federal (Sigepe), que acabou bloqueando os descontos das prestações do contracheque do servidor. Hoje, a dívida voltou para a Caixa e as parcelas são de R$ 1.200.

O transtorno financeiro, porém, obrigou Saviolli a abrir mão do carro e do plano de saúde. Ele teve ainda que penhorar joias e quase teve de vender a casa para pagar os compromissos.  “Isso causa terror na gente. Há pessoas que até fazem empréstimos com agiota, mas aí a dívida cresce como bola de neve, e elas perdem a noção das coisas. Eu não andava de ônibus havia 20 anos. Agora, pego todo dia, porque tive que abrir mão da vida que tinha”, lamenta.

Pressão social e facilidade


O educador financeiro Jônatas Bueno conta que já chegou a receber clientes que deviam 10 vezes mais que o valor do próprio salário. E confirma que, pela sua experiência de atendimento, o servidor público é o que tem mais tendência de se endividar. "Ele têm a pressão social de que recebe mais, de que tem  padrão de vida mais elevado", justifica. "O crédito consignado é muito atrativo. Mas, como muitos servidores não têm orientação sobre o uso desse crédito, acabam utilizando esse instrumento de forma indiscriminada."

Já para o trabalhador do setor privado, a instabilidade da economia costuma ser um fator que dificulta o endividamento, pondera o especialista. Como pode ser demitido a qualquer momento, ao assumir uma dívida, o empregado de empresas particulares não tem a certeza de que conseguirá pagar o compromisso, o que pode funcionar como um freio à contratação de empréstimos.

Na opinião de Jônatas Bueno, porém, a falta de educação financeira é a principal deficiência do brasileiro quando se fala em capacidade de lidar com dinheiro. "No panorama geral, não temos o hábito de poupar dinheiro. Costumamos levar a vida com base no endividamento, parcelando viagens em 12 vezes, por exemplo. Isso é uma cultura que tem muito a ver com a condição financeira", explica.

Para Bueno, o consumo, seja ele qual for, precisa ser avaliado sob a ótica da condição financeira de que se dispõe para realizar os gastos. Em vez de se endividar para comprar um determinado bem, por exemplo, é mais vantajoso acumular previamente o valor necessário e adquirir o produto à vista, ou em poucas parcelas que caibam no orçamento. Acima de tudo, é preciso ter bom senso, observa. Pagar tudo de uma vez e ficar sem dinheiro para imprevistos também não é uma boa opção, pondera.

 

Correio Brasiliense
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